LEIA TAMBÉM | Na 15° edição do Jornal ADUFSCar, coluna apresenta três poemas escritos por mulheres

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Três poetas contemporâneas

Nesta edição, apresentamos três poetas nascidas nos anos oitenta, em diferentes latitudes. Paulista de Pitangueiras, Yasmin Bidim (1988) comparece com um poema de seu novo livro Pedra Preta (Ofícios Terrestres, 2025), no qual alcança uma elocução universal que, quando funciona, pode transformar o poema num clássico. Da mexicano-brasileira Paula Abramo (Cidade do México, 1980), que terá seu livro de estreia, Fiat Lux (2012), ser lançado em breve no Brasil, pela editora 34, apresentamos o poema “Collage”, sobre o mítico chupa-cabras. Da mexicano-escocesa Juana Adcock (1982), o primeiro poema de seu novo livro, recentemente lançado no México, Dolly Parton y la traducción imposible, em que parte da estrela da música country norte-americana para uma viagem lírica improvável. Yasmin escreve em português. Paula em espanhol e português. Juana em inglês e espanhol. Yasmin fotografa; Paula e Juana são tradutoras.

o parto                                                                                  
(Yasmin Bidim)

às vezes as mulheres
não querem
só os brinquedos
às vezes as mulheres
querem pensar
as coisas sérias da vida
os dramas
os fenômenos
a metafísica
às vezes as mulheres
querem correr
alucinar
às vezes elas querem
sair varrer
a sujeira
pra debaixo do tapete
às vezes as mulheres
não querem dormir
e muitas vezes
elas não querem sequer
ir para cama
e há também
claro
as que não querem
acordar nunca mais
às vezes as mulheres
querem só cantar
e não ter filhos
às vezes as mulheres enlouquecem
e afogam seus filhos
os de verdade e os imaginários
às vezes as mulheres
molham as mãos
em enormes pilhas de louça
nas pias desse país
muitas e muitas vezes
as mulheres conjecturam silenciosamente
e resolvem – ainda mais silenciosamente –
os conflitos do mundo
às vezes, por fim,
as mulheres desejam
sentar ao lado da janela
e escrever em um caderno sem pauta
o inventário analítico
de todos os pensamentos
espalhados por cada um
dos cômodos da casa
e entregar ao mundo as palavras
para que não virem restos memória
e é assim
que as mulheres fazem
todo dia
o parto da História

Collage
(Paula Abramo.
Trad. de Ricardo Domeneck)

Do minotauro, não o sangue, não
os chifres; não
Possêidon inflamado. Da fúria do minotauro,
Minos
e o tauro.
Agarrar o touro pelos chifres.
Diante da fera obscura, um copy paste milenar
diz eu e recorta,
do leopardo, as manchas; do camelo,
a corcunca cognoscível:
camelopardo,
homem-do-saco,
rinoceronte,
tetraz-grande,
chupacabra.
O chupacabra:
vítimas sangrentas entre agaves e milpas,
Tlalixcoyan e Nanchital ensanguentados,
e as presas vertendo,
por um só, inquietante orifício,
o valor nominal
do peso mexicano.
O chupacabra, o monstro óbvio.
Do chupacabra, não o calafrio,
não o avistamento alienígena.
Do chupacabra, o chupar
e a cabra.
Não o canino do narval.
Sim os dígitos multiplicados como câncer,
no preço do taco de arenque vermelho.
Do minotauro, Minos:
o mesquinho fomentador da desgraça.

Dolly Parton fala da
tecnologia da tradução
(Juana Adcock. Trad. Wilson Alves-Bezerra)

apaixonar-me por um estrangeiro
me permitiu voltar à infância
a uma língua que não domino
e que pacificador é não dominar
subordinar-se à topologia dos gestos
abandonar o controle
a palavra aprendida à mesa com os tios
e se deixar formar por uma linguagem oculta:
espichar o pescoço e avistar palavras,
deduzir significado, tom, intenção
como se se pudesse absorver um idioma
pela pura inércia de se comportar direitinho
eu poderia te dizer a demarcação de cada sílaba
o campo semântico da maioria dos substantivos
o tom emocional de cada conector
meses com meu sorriso de limão silente
onde eu só sei dizer tá, tá bom, é, gostei,
bom demais, docinho, obrigada
voltar para casa e passar horas na esteira
me demorando com meu conjugar os verbos
e você
sempre prodigiosamente inalcançável
continuaria dormindo na praia
minha voz decorará seu peito
até imprimir um fotograma na sua pele
do meu idealizador, meu capataz, como se diz
não inventaram ainda a máquina que saiba
nem me imitar
nem me imitar imitando
sua sintaxe desconhecida

Coluna Leia Também  - Contribuição de Wilson Alves-Bezerra
Docente no Departamento de Letras
UFSCar São Carlos
2º Secretário da Regional São Paulo do ANDES-SN

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