ALFONSINA STORNI, POETA E MILITANTE
Alfonsina Storni (Sala Capriasca, Suíça, 1982 – Mar del Plata, Argentina, 1938) foi poeta e cronista, havendo publicado em diversos magazines e revistas culturais de Buenos Aires, desde o fim dos anos dez até os anos trinta do século vinte. Tanto em sua lírica quanto em seus artigos e crônicas, coloca em questão a mulher e seu lugar na sociedade, como neste aforismo: “A mulher que se enamora de um homem pelo corte de suas calças é digna da zoologia.” (Cositas sueltas, La Nota, 4 de fevereiro de 1919). Trago uma seleção de poemas, traduzidos por mim, que colocam em circulação essa voz fundamental, que tanto tempo tardou a chegar entre nós. Todos estão presentes na antologia Sou uma selva de raízes vivas, publicada em 2020, pela editora Iluminuras.
A loba
À memória de minha pobre amiga J. C. P.
Porque este foi seu verbo.
“Eu sou como a loba.
Deixei o rebanho
E parti à montanha
Cansada do campo.
Eu tenho um filho fruto do amor, amor sem lei
ser como as outras não quero, gente que nasceu para ser gado,
Cabisbaixo, arrastando arado; levo erguida a cabeça
É com as mãos que eu afasto o capim.
Olha como riem, como me apontam
Só porque eu falo: (as ovelhinhas balem
Porque sentem que a loba invadiu o curral
E sabem que as lobas vêm do matagal).
Pobrezinhas e mansas ovelhas do rebanho!
Não tenham medo da loba, ela não lhes fará nenhum mal.
Mas também não riam, os dentes dela são finos
E da selva trazem a arte dos manejos felinos!
Ela não roubará vocês do pastor, por favor,
Eu sei que alguém disse e vocês acreditaram,
Mas não tem porquê, essa loba não rouba,
seus dentes apenas matam quando devoram.
Ela entrou no curral porque sim, porque gosta
De ver como ao chegar o rebanho todo se acossa,
e disfarça com um riso a superfície do medo
Sugerindo com esgares um estranho ardor…
Vão, se puderem, ficar de frente com a loba
E roubar dela o filhote. Mas vão sozinhas, não podem?
Nem escondidas no bando nem acudindo ao pastor.
Vão sozinhas! Vamos ver quem afronta o pavor!
Ovelhinhas, mostrem os dentes! Que pequeninos!
Não conseguem, coitadas, caminhar sem os donos
Pela montanha escarpada, porque se a onça à espreita
der o bote, não tem defesa, vocês morrem-lhe à boca.
Eu sou como a loba. Ando sozinha e dou risada
Do rebanho. Não preciso de nada. Quem me sustenta sou eu.
Onde quer que for, pois tenho uma mão que é hábil,
Um cérebro ágil e não deixo por menos.
Aquela que puder, que me siga.
Eu já estou de pé, diante do inimigo,
A vida, e não tenho medo de seu ataque final
Porque trago sempre comigo meu punhal.
O filho na frente, eu em seguida e depois… o que vier!
Quem me chamar primeiro para a briga, venha se puder.
Às vezes me iludo com uma semente de amor
Que eu sei impedir que floresça antes do amanhecer.
Eu sou como a loba.
Deixei o rebanho
E parti à montanha
Cansada do campo.”
Capricho
Penetre-me os olhos, surpreende-me a boca,
Agarre forte com suas mãos esta cabeça louca,
Dê-me de beber veneno, o veneno maldito
Que lhe lambe os lábios apesar de inofensivo.
Mas não me pergunte, não me pergunte nada
De por quê chorei na noite passada;
Nós mulheres choramos sem saber o motivo:
Perguntar-se do choro é interrogar o infinito.
Logo se vê que dentro temos um mar oculto
Um mar um pouco tolo, bestamente absoluto,
Que nos sobe aos olhos com frequência
Que conduzimos com imprecisa ciência.
Não me pergunte, amado, você deve suspeitar
Na noite passada não estava calmo o mar.
É tudo. Tempestades que o vento traz e leva
Vento vadio que novas costas navega.
Sim, tolas borboletas no jardim de janeiro
Nosso interior é todo um vazio pleno.
Luz de cristais, fruto de carnavais
Decorado de escamas de serpentes fatais.
Somos assim, você sabe. O poeta falou:
Mobilidade absoluta de inconsciente sedutor,
Desejamos e saboreamos o mel de cada taça
E na cabeça ainda temos um pouco brasa.
Bem, não, não me pergunte. É coisa de mulher,
Capricho, meu querido, capricho deve ser.
Oh, me deixe rir… Não vê que a tarde é bonita?
Manche-se logo de sangue nessa rosa infinita.
Homenzinho miúdo
Homenzinho miúdo, homenzinho miúdo,
Solta o seu canarinho que ele quer voar…
Eu sou o canarinho, homenzinho miúdo,
Me deixa pular.
Estive na sua gaiolinha, homenzinho miúdo,
Homenzinho miúdo, mas que gaiola você me dá,
Digo miúdo porque você não me entende,
Nem nunca me entenderá.
Nem eu também lhe entendo, mas enquanto isso
Abre logo esta gaiola, que eu quero escapar;
Homenzinho miúdo, eu te amei por meia hora,
Não me peça mais.
Feminina
Baudelaire, eu me lembro de suas Flores do mal
em que você fala de uma horrível e perversa judia,
talvez como o corpo das serpentes, fria,
em lágrimas indouta e em ser pérfida genial.
Mas ao lado dela, você não era pobre, Baudelaire:
de suas formas vendidas, e de sua cabeleira
e de suas ondulantes carícias de pantera,
homem ao fim, você conseguia um pouco de prazer.
Mas eu, feminina, Baudelaire, o que eu faço
deste homem calmo e turvo como um gélido lago,
obscuro de ambições e ébrio de vaidade,
em cujo parco peito salobro não conseguiram
nem meu cálido alento, nem meu beijo rendido,
fazer brotar um pouco de generosidade?