JORNAL ADUFSCar | 14º Edição traz artigo “Universidade, democracia e o direito de pensar”

JORNAL ADUFSCar | 14º Edição traz artigo “Universidade, democracia e o direito de pensar”

Estamos vivendo em uma época em que a democracia, embora formalmente vigente, vem sendo tensionada em todos os espaços da sociedade, inclusive, portanto, naqueles em que produzimos conhecimento e pensamento crítico. Temos sido testemunhas do quanto a ciência de modo geral e as universidades públicas de modo específico têm sido alvos frequentes de violência simbólica e real e de tentativas de deslegitimação de seu papel para o desenvolvimento da nação. Esses ataques não se restringem apenas a uma divergência de ideias que pode ser saudável, quando expostas e debatidas republicanamente, mas, antes disso, se constituem em uma estratégia organizada da extrema direita mundial para enfraquecer os pilares democráticos e abrir passo para retrocessos que ameaçam a vida humana e a própria existência do planeta.

Neste mais do que delicado momento, defender a universidade pública e a liberdade de pensamento, fundamental para manter viva nossa capacidade de produção científica não é um mero capricho corporativo. O espetacular O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, nos ajuda a pensar no quanto essa defesa traz, em sua essência, o próprio direito que cada pessoa e/ou cada coletivo tem de existir, de produzir, criar e, também, de imaginar outros futuros possíveis. Esse Įlme é imperdível para quem gosta de alimentar com boa lenha as relações sobre nosso passado recente e suas relações com o que vivemos atualmente.

Na democracia não pode haver silenciamento

A democracia pressupõe liberdade de pensamento, pluralidade de ideias, igualdade de direitos, justiça social e respeito à vontade popular expressa nas urnas. Quando a ciência e as universidades são atacadas, o que está em risco não
é apenas essa ainda pequena parcela da sociedade que está dentro do sistema universitário público, mas sim o próprio funcionamento democrático. Nos últimos anos, em particular desde 2016, temos sofrido com uma avalanche de discursos que tentam desqualificar professores, pesquisadores e instituições públicas de ensino superior. A imensa maioria deles se baseia em mentiras e/ou desinformação e chegam a ser bizarras as formulações que afirmam, por
exemplo, que as universidades são “lugar de balbúrdia”, “aparelhos de doutrinação”, que nelas ocorre “imposição do marxismo cultural e da ideologia de gênero” e que são um “desperdício de dinheiro público”. Essas narrativas atualizam imagens reacionárias já cristalizadas e operam no sentido não somente de desmoralizar o fundamental papel das universidades enquanto espaços de produção de pensamento crítico, mas também de reduzir a importância de sua função social em um país com tantas desigualdades como o Brasil.

Esse trabalho discursivo de descredibilização provoca o retorno do distanciamento, no nível do imaginário, entre universidade e sociedade, algo que vinha sendo revertido, mesmo que muito lentamente, com o projeto de democratização de acesso por meio dos programas de ações afirmativas que se iniciaram na primeira década dos anos 2000. E um dos efeitos mais perversos desse processo se dá sobre jovens estudantes de Ensino Médio, que se sentem desmotivados a ingressar no ensino superior público, ainda mais em cursos presenciais.

Com a desvalorização do pensamento crítico e a desqualificação de seus espaços de produção é que se prepara o caldo para o avanço de projetos reacionários e autoritários, que manipulam a população por meio de informações distorcidas ou mentirosas.

A lógica do ‘nós contra eles’: terreno fértil para o autoritarismo

A polarização artificial que inventa o enfrentamento baseado no “nós contra eles” desvia o debate do que realmente importa. Quando só se enxergam dois lados irreconciliáveis, desaparece o espaço para a problematização e para o verdadeiro e honesto confronto de ideias. Consequentemente, também se extingue a capacidade de escuta e diálogo. Nesse ambiente social empobrecido, cresce a tentação autoritária, apresentada como “solução fácil” para conflitos políticos e sociais.

Em diferentes países, mesmo com diferenças culturais significativas, vem se repetindo um mesmo padrão: desacreditar a ciência, espalhar desinformação, distorcer os sentidos de “liberdade de expressão” e capturar a opinião pública pelo medo. A politica do medo é um dos instrumentos mais eficazes dessa extrema direita global e, no Brasil, ela se manifesta com graus inaceitáveis de brutalidade. A recente chacina promovida por forças de segurança no Rio de Janeiro, no dia 28 de outubro, não pode ser lida apenas como episódio “isolado” de violência estatal: ela se inscreve em uma lógica política que transforma o medo em estratégia de governo e em capital eleitoral. É a mesma lógica que, em diferentes países, associa autoritarismo, militarização e necropolítica à promessa de “ordem” para alcançar a “prosperidade”.

A exploração do pânico social diante da violência urbana e a existência de um inimigo interno na figura do “traficante” – que é sempre pobre, negro e periférico, claro – tentam justificar toda e qualquer ação praticada “em nome da segurança”. Nesse sentido, o ironicamente nomeado “Consórcio da Paz” e a colocação em circulação do perigosíssimo conceito de “narcoterrorismo” alargam grandemente as possibilidades de um verdadeiro “vale tudo” nessa eterna reedição da política de “guerra às drogas”, abrindo espaço inclusive mais uma tentativa de ruptura do princípio da soberania nacional.

Episódios como esse não apenas violam princípios fundamentais dos direitos humanos, mas também alimentam a manipulação da opinião pública, deslocando o debate das políticas estruturais de redução das desigualdades para soluções imediatistas violentas. Quando o Estado escolhe produzir medo em vez de garantir direitos, quando prefere se igualar ao crime organizado em vez de combatê-lo, o caminho para projetos autoritários fica fortalecido pois, na lógica do “combate ao narcoterrorismo”, fica justificada até mesmo a criminalização do pensamento crítico e a perseguição de quem defende outras formas de enfrentamento à violência sistêmica. A pior consequência disso tudo é, mais uma vez, o enfraquecimento da democracia.

O que precisamos defender coletivamente?

Se nós, dentro das universidades brasileiras, queremos contribuir com a manutenção de um horizonte democrático e com a retomada de um projeto civilizatório para nosso país, em franco processo de destruição pela necropolítica com que operam os agentes da extrema direita, precisamos transformar indignação em ação. Isso passa por assumir a defesa de princípios concretos que sustentam a universidade pública, a produção de pensamento crítico, a ciência, a
justiça social e a vida republicana, mas passa também por atuar de modo prático na sua disseminação.

Entre tantas defesas imprescindíveis, quero destacar algumas que dizem respeito de modo muito específico ao nosso cotidiano enquanto comunidade universitária:

• A autonomia universitária e o financiamento público para a ciência e a educação superior. Sem isso, não há liberdade acadêmica, produção de conhecimento nem compromisso social;

• A regulação democrática da informação e das redes sociais, garantindo o equilíbrio entre liberdade e responsabilidade. As pessoas têm o direito à palavra, mas também têm o dever da responsabilidade com a verdade, a segurança e a dignidade;

• O fortalecimento dos espaços públicos de debate e participação social nas decisões sobre educação, ciência e tecnologia etc. Políticas de Estado precisam ser construídas sempre com escuta e em diálogo com a sociedade, nunca impostas de cima para baixo;

• A valorização do trabalho docente e da pesquisa, não apenas por meio de salários e condições materiais, mas de respeito institucional, liberdade de pensamento e reconhecimento do papel social da universidade pública;

• A aproximação entre universidade e povo, especialmente dos grupos historicamente excluídos. A universidade precisa ser direito e permanecer sendo sonho – e não território de violência e sofrimento.

Parece um chavão – e pode mesmo ser –, mas não há como negar que estamos diante de mais uma encruzilhada histórica: ou permitimos que projetos autoritários continuem instrumentalizando o saber, corroendo a confiança
nas instituições e perseguindo o pensamento crítico, ou assumimos a tarefa de defender a democracia em nossa prática cotidiana.
Defender a universidade pública, a ciência, a liberdade de pensamento e a justiça social não é tarefa apenas de professoras/es ou pesquisadoras/es, claro. Mas nós, como servidoras/es públicos federais, não podemos nos furtar de
assumir esse compromisso com a sociedade brasileira e o futuro da nossa democracia.

Fernanda Castelano Rodrigues
Docente no Departamento de Letras – UFSCar São Carlos

 

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