O papel da universidade na emancipação das mulheres brasileiras
As mulheres já constituem maioria no ensino superior brasileiro há pelo menos duas décadas. Segundo dados do INEP, elas representam cerca de 59% entre concluintes dos cursos de graduação, índice que se mantém relativamente
estável nos últimos anos. No entanto, essa presença majoritária não se distribui de forma homogênea entre as áreas do conhecimento: as mulheres seguem sub-representadas nos cursos de engenharias e tecnologia, enquanto concentram-se nas áreas de educação, saúde e ciências humanas. Essa segmentação também se reflete na pós-graduação e na carreira científica, como indicam levantamentos da CAPES e do CNPq, que apontam maior presença feminina nas etapas iniciais da formação acadêmica, mas uma redução progressiva à medida que se avança para posições de maior prestígio e poder, como a coordenação de projetos, bolsas de produtividade e cargos de gestão.
Na UFSCar, dados institucionais e iniciativas como o Observatório Mulheres UFSCar evidenciam tanto avanços quanto limites: se, por um lado, as mulheres são maioria entre estudantes de graduação, por outro, ainda enfrentam desigualdades na progressão da carreira docente, distribuição de recursos para financiamento de pesquisas, para citar alguns exemplos. Esse quadro reforça que ainda precisamos avançar muito, institucionalmente, para garantir
as condições de permanência qualificada e de ascensão em igualdade de condições a que as mulheres têm direito.
Por isso é tão fundamental que a diversidade de gênero, raça e classe não seja tratada como mera dimensão acessória, mas como princípio estruturante do projeto de Universidade que queremos para o Brasil.
As políticas de ações afirmativas, incluindo as cotas raciais e, mais recentemente, as cotas para pessoas trans, têm se mostrado cruciais para tensionar a histórica homogeneidade social do espaço universitário e produzir deslocamentos concretos na composição do corpo discente. Progressivamente, também temos presenciado essa mudança no corpo docente, mas talvez ainda seja aqui onde mais precisamos avançar de modo concreto em ações que possam garantir a presença da diversidade. Mais do que mecanismos de inclusão, as políticas afirmativas são instrumentos de reparação histórica e de democratização do conhecimento, essenciais para a construção de uma universidade comprometida com a transformação social.
Por isso mesmo é que também precisamos pensar e implementar políticas afirmativas para mulheres. Porque é nesse horizonte que se inscreve o papel da universidade na emancipação das mulheres brasileiras: não apenas como espaço de acesso ao saber, mas como território de disputa por reconhecimento, direitos e poder. Em um país marcado por desigualdades persistentes, ampliar a presença de mulheres em toda sua diversidade nos espaços universitários e, sobretudo, nas estruturas de decisão e comando, é condição para que possamos avançar na construção de um projeto de sociedade efetivamente democrático, no qual a igualdade não seja apenas um princípio abstrato, mas uma realidade materialmente vivida.
Todas mulheres, mas não todas iguais em direitos
Não podemos falar em políticas públicas para as mulheres sem considerar que a violência de gênero incide de maneira profundamente desigual no interior desse grupo. No Brasil, são as mulheres negras de territórios periféricos as principais vítimas de violência doméstica e feminicídio, respondendo por cerca de dois terços dos casos registrados, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Essa sobrerrepresentação evidencia a articulação entre gênero, raça e classe na produção da violência. Igualmente imprescindível é incluir as mulheres trans no horizonte dessas políticas: o Brasil permanece, há mais de uma década, como o país com o maior número de assassinatos de pessoas trans no mundo, conforme levantamentos da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (ANTRA). Ignorar essas dimensões é, na prática, comprometer a efetividade de qualquer proposta que se pretenda universal.
Em anos recentes, têm ganhado visibilidade, sobretudo nas redes sociais, discursos que, sob a autodenominação de um suposto “feminismo radical”, negam o reconhecimento de mulheres trans como sujeitas de direitos no interior da categoria “mulheres”. Não raro, tais posições recorrem a uma desonesta inversão conceitual ao acusar de “misóginas” aquelas que sustentam uma perspectiva inclusiva. Trata-se de um uso equivocado e politicamente regressivo de um conceito historicamente central para as lutas feministas e sua defesa acaba por reatualizar, sob nova roupagem, formas de exclusão e discriminação praticadas pelos setores mais reacionários da sociedade brasileira.
Esse tipo de discurso desconsidera e contrasta com avanços importantes no campo jurídico, como o reconhecimento do direito à identidade de gênero pelo Supremo Tribunal Federal, em 2018, e a decisão de 2019 que enquadrou a transfobia e a homofobia como formas de racismo, ampliando a proteção legal a essa população. Vale lembrar também que está tramitando no Congresso Nacional um projeto de lei que propõe a
tipificação da misoginia como crime específico, buscando responder de modo mais efetivo ao crescimento de discursos de ódio direcionados às mulheres.
Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio
A iniciativa, lançada em 2026 pelo governo federal, articula os três poderes e prevê medidas de prevenção, proteção e responsabilização dos agressores. Ainda que ações como operações de prisão de autores de violência indiquem algum avanço na resposta estatal, os dados revelam a insuficiência das políticas existentes. Persistem, no entanto, desafios muito profundos para a construção de políticas públicas que não apenas acolham e protejam as mulheres vítimas de violência, mas que enfrentem suas raízes sociais e contribuam efetivamente para sua emancipação. Isso implica, de maneira incontornável, a promoção de condições materiais para a autonomia, como o acesso a trabalho digno, renda e independência financeira, dimensões centrais para a ruptura de ciclos de violência. Implica, ainda, o reconhecimento e a reorganização social do trabalho de cuidado, historicamente atribuído às mulheres de forma não remunerada, por meio da formulação de uma política de cuidados que não apenas o reconheça como trabalho que exige contrapartida financeira, mas que institua e amplie equipamentos públicos como creches, cuidadoras noturnas, escolas em tempo integral e serviços de atenção a idosos capazes de redistribuir essa responsabilidade e criar condições concretas para a inserção e a permanência das mulheres no mundo do trabalho.
Fernanda Castelano Rodrigues
Docente no Departamento de Letras UFSCar São Carlos
Presidenta da ADUFSCar nos biênios 2021-2023 / 2023-2025