A Guerra dos Mundos – de Alejandro Michel
O poeta argentino Alejandro Michel (Mar del Plata, 1958 –Buenos Aires, 2022) escreveu o livro A Guerra dos Mundos, um conjunto de poemas em prosa que dialoga com tradições literárias as mais diversas, que vão de Homero e Gilgamesh à barbárie contemporânea. Estes poemas, escritos nos tempos da pandemia, aos quais o poeta não sobreviveu, o trauma humano é elaborado de um modo singular, por alguns signos: o da guerra, que dá título ao livro; o do amor, que o percorre sutilmente; e o do corpo à morte. A covid-19, a grande peste, as grandes guerras, a doença não nomeada do próprio poeta não são temas deste livro, são elementos que colocam o eu lírico na condição da heroicidade trágica, da grandeza épica, do cinismo lírico de afrontar o inafrontável – a morte que nos constitui, a cada um de nós, individual e coletivamente.
Compartilhamos com as leitoras e leitores do Jornal da ADUFSCar, pela primeira vez, uma amostra de alguns poemas que traduzi à língua portuguesa, desta inquietante obra.
Outono de 2020
A vida era perfeita e chata.
É bom voltar a 1918,
ter de novo Deus, a peste e o pânico.
Não quero morrer esta noite.
no meu aniversário de noventa anos,
diz entre lágrimas e espirros,
a vizinha que adota cachorros e gatos
para devorá-los.
Meu neto vai sair do submarino
e vai vir jantar com a vovó esta noite.
Vou ter que cozinhar e esperar. E esperar.
Meu neto vai chegar tarde, o submarino está longe.
Vai me trazer um polvo enorme de presente
ou uma sacola cheia de poraquês.
Não sei cozinhar essas coisas, nunca aprendi.
Vou agradecer a ele e vou abraçá-lo como nunca.
Eu estou tão feliz, esta noite eu não posso morrer
Wilson Alves-Bezerra Docente no Departamento de Letras UFSCar São Carlos 2º Secretário da Regional São Paulo do ANDES-SN