Em pleno século XXI – o século da inteligência artificial, da biotecnologia, da transição energética e da chamada quarta revolução industrial – milhões de brasileiros ainda recorrem ao fogão a lenha e a outras formas improvisadas para cozinhar quando não conseguem pagar por um botijão de gás.
É aqui que o programa “Gás do Povo” assume um significado que ultrapassa o debate técnico sobre subsídios ou políticas sociais. Ao menos para mim, o programa estabelece uma linha divisória simbólica e concreta entre a barbárie e a civilização.
Afirmo isso porque entendo que, em um país próspero e democrático, não podemos naturalizar certas imagens, tais como: a cozinha tomada de fumaça; a fuligem impregnada nas paredes; a panela apoiada sobre três pedras improvisadas; crianças respirando ar pesado; mulheres gastando horas do dia no preparo de uma simples refeição etc.
Estrutura social perversa
Uma sociedade que admite que seus cidadãos cozinhem com lenha por incapacidade econômica está dizendo, ainda que silenciosamente, que parte de sua população pode permanecer à margem da modernidade. E isso não é um detalhe doméstico; é uma estrutura social perversa.
Nesse âmbito, o acesso ao gás de cozinha significa mais do que uma chama azul acesa no fogão. Significa saúde pública: menos doenças respiratórias, menor exposição à fumaça tóxica, menos riscos de queimaduras graves. Significa também economia de tempo, especialmente para as mulheres, que historicamente assumem o trabalho doméstico. Significa segurança alimentar, dignidade cotidiana, pertencimento a um padrão mínimo de vida moderna.
O papel das políticas públicas
É preciso entender que políticas públicas existem justamente para impedir que o mercado empurre os mais pobres de volta ao atraso tecnológico. Quando o preço do gás dispara e o Estado cruza os braços, o resultado não é eficiência econômica: é regressão social. Vimos isso acontecer de forma bastante acentuada na última quadra presidencial.
Nesse tema, há uma contradição que salta aos olhos. O Brasil abriga uma das maiores empresas de energia do mundo: a Petrobras. Somos produtores relevantes de petróleo e gás. Não estamos falando de um país sem recursos naturais ou sem capacidade tecnológica; estamos falando de escolhas políticas.
Nesse sentido, é inaceitável que, em uma nação com tal estrutura energética, o gás de cozinha se transforme em artigo de luxo para famílias de baixa renda. Quando isso acontece, não é a escassez que está operando, mas sim um modelo de gestão equivocado.
O “Gás do Povo”, nesse contexto, não deve ser lido como mero assistencialismo. Ele recoloca o debate no eixo civilizatório: dispor de uma tecnologia energética básica é condição de dignidade. Garantir acesso ao gás para os mais pobres não é favor; é dever de Estado.
Considerações finais
Civilização não se mede apenas por satélites em órbita, parques tecnológicos ou promessas de inovação digital. Mede-se, antes de tudo, pela capacidade de assegurar que nenhuma mãe ou pai precise escolher entre comprar o botijão e expor seus filhos aos riscos de uma cozinha improvisada dentro de casa.
Portanto, o programa “Gás do Povo”, do governo Lula, não distribuirá apenas gás. Distribuirá dignidade. E, num país profundamente desigual como o nosso, isso não é exagero retórico: é o mínimo civilizatório. Os que se opõem a essa política revelam indiferença social e perversidade.