Um poema em homenagem a Moïse Mugenyi Kabagambe (1997-2022). Ele nasceu em Ituri, no Congo, em 4 de abril de 1997. Vivia no Brasil desde 2011, para onde veio adolescente, com a família, para se proteger da guerra em seu território. Tinha 24 anos e trabalhava num quiosque chamado Tropicália, na Barra da Tijuca. Recebia por dia. Em 24 de janeiro de 2022 foi cobrar seu pagamento e apanhou até a morte de um colega do quiosque.
Essas palavras sobre o fim
I
Às vezes, para se entreter,
os feitores da equipagem
entre dias de trabalho e vadiagem
enfiam excrementos na boca dos pretos.
Essa carga, tanto tarda, nunca chega
Essa carga, que se perde, que se mata
Entre um lado e outro do oceano.
Acalanta um corpo prenhe no convés
a borrasca.
Acalanta um corpo enfermo no porão
um rato.
Acalanta um corpo farto na prisão
nns ventos
Escrevo, entre lábios, para ver
se este momento
passa
mas estou congelado
num canto sujo
rábico
pouco depois
de mil e quinhentos.
Essa carga, tanto tarda, nunca chega
Essa carga, que se perde, que se mata
Entre um lado e outro do oceano.
O navio ao pé de nós,
não se apressa em naufragar.
Não há o mar.
Não há o gesto ou o sentido
que justifique um verso.
Tudo corre para trás e para dentro.
O algoz distrai-se com sua fugaz supremacia.
O navio onde jazia meu corpo
faz água
e nós na equipagem
nada mais que sobreviver.
Fornicam sobre nossa memória.
Fornicam sobre a história.
e sobre os corpos dos futuros defuntos.
Transformados desde já em assuntos.
Coisas que contar.
Porque agora é assim.
Albatrozes não há mais.
Minas ainda não
ou bahia que aportar.
Diluem-se meus traços primeiros
na face alheia do mar.
Essa carga, tanto tarda, nunca chega
Essa carga, que se perde, que se mata
Entre um lado e outro do oceano.
Malungo, não foge de mim.
Se doce fosse morrer assim, no mar
valeria ser privado de tudo
mas não.
Plantar cana para a embriaguez alheia
como se fosse pouco
e por inĮndos alqueires de miséria nacional
padecer de sede.
Ver o gelo virar chorume
e uma certa esperança, terra verde,
tornar-se palha
pouco antes
da sevícia
e não chegar a Quebrangulo.
II
O calendário avança,
O tempo não passa.
Arrotam ainda os boçais sua pirraça
quinhentos anos depois,
contra quem sobreviveu
ao agente da milícia
ao capitão do mato
que fareja sapatos, bolsos e passaportes.
A pele luzente
das gentes sem sorte
por sua cor equivocada.
Essa carga, tanto tarda, nunca chega
Essa carga, que se perde, que se mata
Entre um lado e outro do oceano.
Morrer no mar é o puro creme do exílio
Moïse Mugenyi Kabagambe há de saber.
Morrer na orla, que há de ser
tantos golpes depois?
A vertigem da repetição.
A terra segura sob os pés
escapa-lhe.
Memórias que acudiam
eram de outros de todos de nenhuns e nós.
Um marinheiro feito um rato no leme.
Um iceberg incerto noutros olhos.
Dentes de chacais surgem dos lábios da besta canavieira.
A verdade a meias dos monges oĮciais.
Um corpo avulso sob coturnos e padres.
Essa carga, tanto tarda, nunca chega
Essa carga, que se perde, que se mata
Entre um lado e outro do oceano.
Uns olhos alheios.
O Rio de Janeiro deserto.
A las cinco de la tarde
para matar e deixar morrer.
Hora perfeita da vontade
a indiferença
moi.
Quinhentos anos
e Moïse ainda era o mesmo.
Brasil é lugar de morrer.
Antropofaria, tropicaria, mas não,
ele só queria receber o soldo.
Mas aqui, aprenda-se,
na senzala
canta a vara
e não é para ninar nenê.
Sua bossa é nossa disciplina.
Quem levanta a voz é só senhor.
Na barra da Tijuca da nossa míngua
quando um preto argumenta
avança um tropel de golpes
boca adentro.
Mas se todo preto avança
também não avançará o tempo
de mil e quinhentos
para um pouco adiante
ao menos?
Essa carga, tanto tarda, nunca chega
Essa carga, que se perde, que se mata
Entre um lado e outro do oceano.
Wilson Alves-Bezerra – Docente no Departamento de Letras – UFSCar São Carlos, escritor e tradutor