O programa Saúde e Trabalho é resultado de uma parceria entre a ADUFSCar através do Comitê de Saúde Docente e a Rádio UFSCar, que surgiu na gestão do biênio 2021-2023 e foi renovada no período seguinte. Em julho de 2025, completamos 2 anos e meio no ar, com mais de 67 edições diferentes.
Logo no início de seus trabalhos, o Comitê em questão objetivou promover ações para discutir a saúde na comunidade universitária e dentre as possibilidades, surgiu a ideia de criar um programa de rádio semanal com essa temática. Durante as discussões, percebeu-se que a promoção da saúde requer a melhoria nas condições de trabalho que têm provocado o adoecimento e acomete de maneira severa, não só docentes, mas, toda a comunidade.
Por meio da percepção que a Universidade (não apenas a UFSCar, mas no Brasil e no mundo) vem enfrentando o crescimento vertiginoso de doenças adquiridas e decorrentes do trabalho de toda a comunidade acadêmica, o programa nasceu objetivando responder a seguinte questão: por que a comunidade acadêmica outrora tão saudável, vem adoecendo? Além disso, ele busca também comprovar a seguinte hipótese: “o crescimento do adoecimento mental na comunidade é resultante da adoção do paradigma neoliberal e do produtivismo acadêmico, que lhe é decorrente, na universidade”. Isso porque, até meados do início da década de 1980, havia relativamente, poucos casos de adoecimento mental na comunidade universitária. Apesar de, na época, a comunidade se defrontar com a ditadura (civil- -militar), ataques à autonomia e democracia universitária, a comunidade era feliz. Os docentes trilhavam a carreira por eles
escolhida – embora os salários não fossem tão elevados quanto na iniciativa privada, lhes garantia sobrevivência plena, lhes proporcionava fazer ensino, pesquisa e extensão, de forma indissociável, autônoma e ainda tinham garantido por lei, aposentadoria integral, com paridade. Os servidores técnico/ administrativos, embora se defrontassem com baixos salários e sobrecargas de trabalho devido à exiguidade, tinham uma carreira progressiva e aposentadoria integral. Os estudantes, do seu lado, estavam felizes por estarem numa universidade pública, gratuita e de qualidade, que lhes proporcionavam possibilidades profissionais e pessoais.
A partir da década de 1990, esse cenário muda radicalmente, com a chegada ao Brasil e às universidades públicas brasileiras do paradigma neoliberal. Seus efeitos nefastos sobre a universidade promovem o produtivismo acadêmico, individualiza a produção acadêmica, quebra o coletivismo, tornando docentes, servidores e estudantes em gestores individuais de suas carreiras, rompendo com a autonomia universitária e acabando com a aposentadoria integral e paritária. O neoliberalismo na universidade é, junto com outros fatores, o perturbador da saúde e o promotor da doença, fundamentalmente o adoecimento mental, da comunidade universitária.
A Rádio UFSCar disponibiliza as gravações do programa em podcast e esses têm sido bem utilizados, tanto pelo público objeto do programa e comunidade universitária, quanto pela população e estudiosos do assunto. As temáticas apresentadas, embora guiadas pela pergunta objetivo e por aquela hipótese, têm possibilitado o aparecimento de novas questões e novas pautas, como a da imbricação entre as novastecnologias de base microeletrônica e o teletrabalho com o surgimento de novas doenças do trabalho, como o burnout e o karoshi, morte por excesso de trabalho (em japonês), ou o trabalhissídio (em brasileirês).
Por fim, a grande questão que tem surgido no programa é: como vamos encarar o adoecimento mental da comunidade universitária? As alternativas que têm surgido apontam para a necessidade de enfrentarmos uma outra indagação adjacente a essa: qual o nosso projeto de universidade? As alternativas individuais ou institucionais que temos utilizado para o combate às doenças mentais, representadas por um quadrinômio: reconhecimento do sofrimento psíquico-acolhimento–diagnóstico–tratamento/retorno ao trabalho, não resolve a questão de fundo: o adoecimento. Se as condições de trabalho na universidade, orientadas pelo paradigma neoliberal, não forem mudadas na direção da promoção à saúde, a comunidade continuará adoecendo. Portanto, o Saúde e Trabalho vai na direção da mudança das condições de trabalho e essa é uma produção coletiva, que nasce na necessidade de promovermos a saúde; de conhecermos as condições existentes; mirarmos no projeto de universidade e mudarmos as condições de trabalho na direção do projeto.
O programa Saúde e Trabalho vai ao ar toda quinta, às 16 horas, na Rádio UFSCar 95,3 FM. Sintonize, participe e ajude a fortalecer esse espaço de escuta e construção coletiva!
Francisco José Alves (Chiquinho) – Representante das/os Aposentadas/os da ADUFSCar e docente no campus São Carlos